O Estado de São Paulo na contramão da história

“Paulistano, o ar que você respira é um dos piores entre todas as grandes cidades que há no mundo”.

O Estado de São Paulo na contramão da história

Conforme noticiado no dia 13 de fevereiro no jornal Folha de São Paulo, o governo do Estado vai propor que grandes consumidores de energia elétrica gerem a própria energia com geradores. A falta de investimentos durante anos no setor levou o governo a uma proposta estapafúrdia, igualando o sistema elétrico do Estado “mais desenvolvido” do país aos sistemas utilizados nos confins da Amazônia.

O principal gerador de energia elétrica utilizado no país é aquele movido a óleo diesel, um dos combustíveis mais poluentes que existe. A poluição causada pela queima do diesel pode ser dividida em duas categorias: a poluição atmosférica local e as mudanças climáticas.

A poluição atmosférica local é aquela responsável pelas doenças cardiovasculares e do sistema respiratório. Em São Paulo, cerca de 4 mil pessoas morrem anualmente em consequência de problemas causados pela poluição do ar. O custo da poluição para a saúde, somando-se internações, mortalidade e redução da expectativa de vida, chega a 1,5 bilhão de dólares.

“Paulistano, o ar que você respira é um dos piores entre todas as grandes cidades que há no mundo”. O aviso foi dado por György Miklós Böhm, em 1º de janeiro de 1989. Há 22 anos, o médico húngaro, naturalizado brasileiro e especialista em patologia experimental, já alertava para a situação crítica da poluição em São Paulo. Mas a má notícia é que a qualidade do ar não melhorou lá grande coisa desde então.

A maior contribuição vem dos motores movidos a diesel. “Morar em São Paulo significa dois anos a menos na vida de uma pessoa”, afirmou em 2006 o então diretor do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp), Emiliano Affonso. Significa, também, fumar quatro cigarros por dia, seja o paulistano fumante ou não.

Segundo o professor titular e chefe do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva, a culpa de tanta poluição recai sobre o chamado material particulado (MP), partículas finas, com diâmetros inferiores a 2,5 micrômetros. “Elas são especialmente danosas, pois invadem o sistema respiratório de forma profunda, sem nenhuma possibilidade de defesa”, disse. Segundo os especialistas, as micropartículas emitidas pelos motores movidos a diesel depositadas no pulmão se alojam sem licença e lá permanecem para todo o sempre. A doença mais frequente por elas provocada é a inflamação.

A segunda categoria de impacto ambiental refere-se às mudanças climáticas. Estes efeitos não são sentidos imediatamente pela população, pois se trata de mudanças de longo prazo no clima do planeta. As consequências vão desde o aumento do nível dos mares, ocorrência de eventos climáticos extremos como tempestades, secas e furacões, até o aumento da população mundial sob o risco de fome por conta da diminuição da produtividade das principais culturas alimentícias.

A geração de energia elétrica no Brasil é bastante limpa - em relação às mudanças climáticas – quando comparada com outros países, pois cerca de 80% de nossa matriz elétrica é baseada na hidroeletricidade. Gerar energia elétrica com a queima de óleo diesel provoca um aumento de 20 vezes na emissão de gases de efeito estufa em comparação à rede elétrica convencional do país.

Com base nestas informações, fica difícil entender porque o governo insiste em soluções imediatistas e estúpidas, do ponto de vista ambiental e estratégico, ao invés de pensar em soluções de longo prazo envolvendo a geração de energia renovável e um sistema de transmissão e distribuição mais eficiente e inteligente.

Ricardo Dinato, mestrando do Grupo de Prevenção da Poluição da Escola Politécnica da USP.

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