Mosaico do Jacupiranga une conservação com uso sustentável da terra

Conjunto de Unidades de Conservação do Vale do Ribeira é uma das novas áreas do Plantando Águas

Mosaico do Jacupiranga une conservação com uso sustentável da terra

 O Mosaico do Jacupiranga abriga uma nova zona de atuação do Plantando Águas, que são as áreas protegidas de Barra do Turvo e Cajati. Abriga também uma coleção diversa de lugares e histórias: sítio arqueológico, reserva da Mata Atlântica, maior caverna do Estado de São Paulo, e sede de guerrilha durante a ditadura. Conheça um pouco de sua história.

Parque Estadual

O Vale do Ribeira, ao sul de São Paulo, é a maior área de remanescente contínuo de Mata Atlântica no Brasil. O bioma é um dos mais degradados do país, tendo apenas 12,5% de cobertura vegetal nativa da área original, segundo dados da SOS Mata Atlântica. Ali vivem espécies ameaçadas de extinção, como o mico-leão-caiçara e o papagaio do-peito-roxo.
A importância da região para a biodiversidade motivou a criação do Parque Estadual do Jacupiranga (PEJ), em 8 de agosto de 1969, com 150 mil hectares de extensão e envolvendo seis cidades: Barra do Turvo, Cajati, Cananéia, Eldorado, Iporanga e Jacupiranga.
Algum tempo depois da criação do PEJ, em 1985 - o último ano do regime militar –, ele foi tombado pelo Conselho de Defesa do patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), órgão da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. E em 1991 a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) declarou a região um Núcleo de Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Histórias

No mesmo ano de criação do Parque, Carlos Lamarca desertava do Exército Brasileiro e passava a liderar a guerrilha Vanguarda Popular Revolucionária, instalada no Vale do Ribeira e que combatia a ditadura. As cavernas do PEJ serviram de esconderijo para os guerrilheiros.
A passagem de Lamarca é uma das histórias contadas pelo Centro de Exposições Temático do atual Parque Estadual do Rio Turvo, Núcleo Capelinha. O museu também fala da biodiversidade da região e da descoberta do esqueleto humano fossilizado mais antigo do estado de São Paulo, encontrado em 1999 por arqueólogos, geofísicos e biólogos.
O fóssil estava enterrado num sambaqui, uma estrutura de conchas que até então era associada a populações indígenas mais recentes. Porém, o teste de carbono feito no esqueleto apontou que ele tinha 10 mil anos. O esqueleto foi apelidado de Homem de Capelinha e depois de Luzio, que é uma referência ao esqueleto mais antigo do Brasil, chamado de Luzia, encontrado em Minas Gerais e que tem 11 mil anos.

Conflitos sociais

A criação do PEJ delimitou áreas em que já havia ocupação humana, de comunidades tradicionais, famílias de agricultores e terras de fazendeiros, tornando-as áreas protegidas de uso proibido, tanto para subsistência quanto para atividades econômicas. A região era ainda cortada pela rodovia Régis Bittencourt - BR 116, principal rota do sul do país para o resto de São Paulo.
Isso, aliado à falta de fiscalização do Estado, fez com que o projeto desenhado para o Parque, de ser uma área preservada e intocada, não desse certo. É o que conta Ocimar Bim, pesquisador do Instituto Florestal (IF) e que acompanhou a transformação do PEJ em Mosaico do Jacupiranga (Mojac).

“Já havia conflito pelas terras, mas era mascarado. Na década de 1990, a criação dos sindicatos dos trabalhadores rurais de Cajati e Barra do Turvo coincidiu com uma maior estruturação do Estado, concurso para guarda, intensificação da fiscalização e implementação de fato da legislação ambiental de 1988”, relata Bim.

O conflito “escancarado” só começou a se resolver em 2008, quando foi sancionada a Lei de criação do Mosaico do Jacupiranga, com uma área 90 mil hectares maior que a do PEJ. O Mojac é formado por 16 Unidades de Conservação (UC), que podem ser de proteção ambiental integral, como o Parque Estadual da Caverna do Diabo, ou uso sustentável, como as APAs e RDS (ver box), onde é permitido habitação e agricultura. Segundo Ocimar Bim, a Lei resolveu, até hoje, dez anos depois, a situação de 85% dos ocupantes da antiga área do Parque.
Ainda há conflito, mas ele comemora. “Antes do Mojac, o Estado e a sociedade daquela região se encontravam em dois lugares: na delegacia e no fórum, para resolver questões criminais. Agora a gente se encontra nos viveiros comunitários, oficinas de educação ambiental, nas festas, nos casamentos, em encontros do conselho das UCs, em visitas de assistência técnica. É uma outra relação, pautada pelo diálogo.”

Tipos de uso sustentável nas Unidades de Conservação

A grande mudança trazida pelo Mojac foi a adequação de áreas com ocupação humana, para garantir não só a sustentabilidade ambiental como também a social. Ali são quatro tipos:

APA – Área de Proteção Ambiental, pode ser propriedade privada ou pública. Permite habitação e uso da terra para agricultura. Tem algumas restrições ambientais, que variam de caso a caso.
RDS – Reserva de Desenvolvimento Sustentável, abriga comunidades tradicionais como quilombos e aldeias indígenas. A preservação da natureza considera as tradições e cultura das comunidades habitantes.
RESEX – Reserva Extrativista, uma concessão de área pública em que famílias tradicionais podem morar e extrair recursos naturais, como pesca e borracha.
RPPN – Reserva Particular de Patrimônio Natural. Terra privada que pode ser destinada à conservação da biodiversidade por apresentar características relevantes, como presença de nascentes.

Texto: Marina Vieira | Foto: Roberto Resende | Mapa: Margareth Nascimento e Cyntia Fonseca

Esta matéria foi publicada na Revista Iniciativa #1, disponível para download no site www.iniciativaverde.org.br/biblioteca-nossas-publicacoes

Compartilhe:

Instagram X Facebook

Notícias relacionadas

Iniciativa Verde faz chamada para elaboração de Plano de Restauração do Vale Paraíba do Sul
Arquivo

Iniciativa Verde faz chamada para elaboração de Plano de Restauração do Vale Paraíba do Sul

Dois editais estão abertos para contratação de serviços de mapeamento, mobilização e planejamento

LEIA
Iniciativa Verde abre edital de Tomada de Preço 01/2021
Arquivo

Iniciativa Verde abre edital de Tomada de Preço 01/2021

Contratação de pessoa jurídica para realização de diagnóstico das ações de restauração, mapeamento de experiências e de unidades demonstrativas e no Vale do Paraíba do Sul

LEIA
Processo de seleção para Contratação de serviços para articulação regional e apoio à elaboração do Plano Diretor de Restauração para a UGRHI 02, Vale do Paraíba do Sul
Arquivo

Processo de seleção para Contratação de serviços para articulação regional e apoio à elaboração do Plano Diretor de Restauração para a UGRHI 02, Vale do Paraíba do Sul

Objetivo é fortalecer e ampliar competências locais e regionais para a multiplicação das iniciativas de restauração florestal na UGRHI02 de forma integrada ao Plano da Bacia. 

LEIA

Notícias mais lidas

01
Arquivo

Conheça seis modelos de Sistemas Agroflorestais que promovem uso sustentável do solo

LEIA
02
Arquivo

Manual de instalação da fossa de bombonas

LEIA
03
Arquivo | Programa Nascentes

Iniciativa Verde e Programa Nascentes ampliam área de Mata Atlântica em torno de Estação Ecológica Ibicatu (SP)

LEIA